柔の道

Oswaldo Fadda: a outra linhagem do jiu-jitsu venceu os Gracie

Oswaldo Fadda (1921–2005) foi um faixa-vermelha de jiu-jitsu brasileiro cuja linhagem se traça por Luiz França até Mitsuyo Maeda, não pelos Gracie. Ensinou nos subúrbios operários do Rio, e nos anos 1950 seus alunos, especialistas em chave de pé, venceram uma equipe da academia Gracie num desafio público, provando que o jiu-jitsu no Brasil tinha uma segunda raiz.

A história costuma terminar com uma só família. Maeda para Carlos, Carlos para os irmãos, a academia no Rio, os desafios abertos, o nome que correu o mundo. É uma boa história, e a maior parte dela é verdadeira. Mas o jiu-jitsu no Brasil nunca foi só dos Gracie. Uma segunda linha corria ao lado da famosa, remontando, segundo a própria tradição, à mesma transmissão do norte que os Gracie reivindicam e chegando ao norte operário do Rio, e nos anos 1950 desafiou os Gracie em seus próprios tatames e, um ano depois, os venceu em público.

Luiz França, a raiz disputada

A segunda linha remonta a Luiz França. Pela versão corrente, ele aprendeu com os japoneses que haviam chegado ao Brasil, Soshihiro Satake em Manaus, Maeda em Belém, Geo Omori em São Paulo, embora o historiador Robert Drysdale observe que não há prova concreta de que ele tenha treinado com nenhum deles. O que não está em dúvida é o que França fez em seguida. Ele ensinou, e ensinou longe dos holofotes que os Gracie tratavam de construir, e um de seus alunos levou a linha mais longe do que qualquer um esperava.

Oswaldo Fadda e o norte do Rio

Retrato de Oswaldo Fadda
Oswaldo Fadda, o faixa-preta de Luiz França que abriu sua academia no norte do Rio e ensinou jiu-jitsu aos pobres da cidade. Seus homens das chaves de pé venceram os Gracie nos anos 1950. Granduque1953 via Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0.

Esse aluno era Oswaldo Fadda, nascido em Bento Ribeiro, um subúrbio pobre no norte da cidade. No Rio dos anos 1940, o jiu-jitsu era entendido como um esporte para os abastados, e a academia Gracie, na zona sul rica, era o seu templo. França promoveu Fadda a faixa-preta por volta de 1942, e Fadda abriu a arte em vez de guardá-la. Ensinou as pessoas ao seu redor, as crianças dos subúrbios e homens que não teriam como pagar um lugar na zona sul, muitas vezes por pouco ou nada, em academias modestas e na areia. Em janeiro de 1950, abriu a sua própria academia nos arredores da cidade. O mundo Gracie o via como um estranho, e ele ensinou assim mesmo.

Fadda desafia os Gracie, 1955 e 1956

Em 1955, Fadda julgou sua escola pronta e fez a coisa mais brasileira que um homem do jiu-jitsu poderia fazer: lançou um desafio público, pelos jornais, ao nome mais famoso da arte. As palavras que a imprensa do Rio registrou sobreviveram: "Queremos desafiar os Gracie", declarou Fadda. "Nós os respeitamos como os adversários formidáveis que são, mas não os tememos. Temos vinte alunos prontos." Hélio Gracie aceitou, e as duas equipes se enfrentaram na própria academia Gracie. Os historiadores ainda divergem sobre aquele primeiro resultado. Um jornal deu sete lutas a três para os Gracie, com quatro empates, enquanto outros relatos, incluindo a biografia de Carlos escrita por Reila Gracie, registram a vitória da equipe de Fadda graças às suas chaves de pé.

As duas escolas se enfrentaram de novo no ano seguinte, em julho de 1956, no ginásio do Maracanãzinho, no Rio, como atração preliminar de uma luta de vale-tudo entre Carlson Gracie e Waldemar Santana, um daqueles combates de golpes e agarramento quase sem regras que definiram a época. Dessa vez, os homens de Fadda venceram sem controvérsia. Seus lutadores eram especialistas em chaves de pé: finalizações que prendem o pé do adversário e torcem o tornozelo ou o joelho até ele ter de bater. Tais golpes eram malvistos. Ataques às pernas eram tratados como baixos e grosseiros, a marca de um lutador sem um jogo melhor, e os alunos dos Gracie gritavam "sapateiro" a cada tentativa. O sapateiro passa o dia de trabalho aos pés dos outros, e a alfinetada carregava também um tom de classe, dirigida a uma arte que os pobres haviam tomado para si. As chaves dos sapateiros funcionaram assim mesmo. Depois, Fadda disse à Revista do Esporte, numa frase que lhe sobreviveu: "Acabamos com o tabu Gracie."

Por que a linhagem de Fadda importa

Nenhum dos encontros destronou ninguém. O nome Gracie seguiu crescendo, e ainda é o primeiro que a maioria das pessoas aprende. Mas aquelas tardes provaram algo que a história de uma só família deixa de fora: a excelência no jiu-jitsu já vivia fora da academia famosa, e vivia entre pessoas que aquela academia havia excluído pelo preço. A linha de Fadda manteve a arte aberta aos pobres, e ela não precisou de permissão para ser boa. O reconhecimento veio assim mesmo: Fadda morreu faixa-vermelha, nono grau, uma das mais altas graduações que o jiu-jitsu concede, e em 2014 uma das federações de jiu-jitsu do Brasil, a CBJJE, o elevou ao décimo grau postumamente. A linha tampouco morreu com ele: vai de Fadda, passando por seu faixa-preta Monir Salomão, até Julio Cesar Pereira, cuja GFTeam se tornou uma das escolas de competição mais premiadas do esporte. A história honesta do jiu-jitsu no Brasil não é uma só casa e um só nome. São pelo menos duas, e uma delas pertencia a todos os outros.

Perguntas que o registro levanta

Quem foi Oswaldo Fadda?

Oswaldo Fadda foi um mestre brasileiro de jiu-jitsu e um dos professores mais graduados fora da família Gracie, faixa-vermelha de nono grau. Faixa-preta de Luiz França, abriu sua academia no norte do Rio em 1950 e ensinou a arte aos pobres e à classe trabalhadora da cidade quando ela ainda era tratada como um esporte de ricos. É lembrado como o mestre por meio de quem sobrevive a principal linhagem não Gracie do jiu-jitsu brasileiro.

Oswaldo Fadda venceu os Gracie?

Sua equipe venceu, embora o resultado do primeiro encontro ainda seja discutido. Quando os alunos de Fadda e a academia Gracie se enfrentaram pela primeira vez, em 1955, um jornal deu a vitória aos Gracie, enquanto outros relatos a deram a Fadda. Os dois lados se enfrentaram de novo em 1956 e, dessa vez, a equipe de Fadda venceu sem controvérsia, ainda usando os ataques às pernas de que os alunos dos Gracie zombavam. O resultado não pôs fim ao nome Gracie, mas provou que o jiu-jitsu era forte fora dele.

Como Luiz França e Oswaldo Fadda se conectam?

Luiz França foi o professor de Fadda. Pela versão corrente, França levou uma linha de jiu-jitsu para o sul, saída da Amazônia, onde a arte teria primeiro chegado ao Brasil, embora essa origem seja justamente a parte que os historiadores não conseguem documentar. O que é firme é que, por volta de 1942, ele promoveu Fadda a faixa-preta. Fadda então construiu em cima disso, abrindo a sua própria academia e passando a arte a alunos que a escola Gracie nunca alcançou. A linha de França a Fadda é a linhagem não Gracie mais conhecida do esporte.

Por que as chaves de pé eram controversas no início do jiu-jitsu brasileiro?

As chaves de pé eram malvistas por razões de status, não de eficácia. Ataques às pernas eram vistos como grosseiros e baixos, o recurso de um lutador sem um jogo refinado por cima, e os alunos dos Gracie zombavam dos homens de Fadda chamando-os de "sapateiro" por usá-las. O insulto carregava um tom de classe, já que a arte de Fadda pertencia aos trabalhadores pobres. Os golpes funcionavam mesmo assim, e os ataques às pernas são centrais no esporte moderno.

Luiz França aprendeu com Mitsuyo Maeda?

Não se sabe ao certo. A versão corrente diz que França aprendeu com os judocas japoneses no Brasil, entre eles Maeda em Belém, mas o historiador Robert Drysdale não encontra prova concreta de que ele tenha treinado com nenhum deles. O que é firme é a linha de França a Oswaldo Fadda, e de Fadda à linhagem operária que ele construiu. Onde o próprio França aprendeu é uma das perguntas em aberto da história inicial da arte.

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