柔の道

Conde Koma: Mitsuyo Maeda, quem trouxe o jiu-jitsu ao Brasil

Mitsuyo Maeda costuma ser apresentado como o mestre que levou o jiu-jitsu ao Brasil e o entregou aos Gracie. Isso é verdade no esboço e enganoso no espírito. O homem que chegou a Belém não era um monge dispensando um segredo. Era um lutador profissional em atividade, um dos melhores do mundo no que fazia, e o que ele fazia era algo que o seu próprio mestre lhe havia dito para não fazer.

Retrato de Mitsuyo Maeda
Mitsuyo Maeda, o judoca do Kōdōkan que se tornou o lutador profissional conhecido como Conde Koma. Wikimedia Commons, domínio público.

Enviado para ensinar, virou lutador

Maeda deixou o Japão em 1904 como judoca do Kōdōkan, parte de um pequeno grupo enviado ao exterior para demonstrar e difundir a nova arte de Kanō. As demonstrações não davam dinheiro. Os cachês eram magros, as despesas não, e para continuar em movimento Maeda começou a aceitar lutas de desafio pagas contra wrestlers, boxeadores e brigões de todo estilo. Isso não era política do Kōdōkan. Kanō havia construído o judô em parte para elevar a arte acima do ringue de apostas, e ali estava um dos seus próprios homens ganhando a vida exatamente no ringue que Kanō desdenhava. Maeda fez assim mesmo, e o fez extraordinariamente bem.

O circuito das lutas profissionais

Durante quase uma década ele foi um lutador itinerante. Entre mais ou menos 1905 e 1913 percorreu os Estados Unidos, a Inglaterra, a Bélgica, a Espanha, a França, Cuba, o México, e desceu pela América Central e do Sul, enfrentando todos os que aparecessem em teatros e ringues. Em algum ponto do caminho tornou-se Conde Koma, nome artístico que carregou pelo resto da carreira. Ele não estava demonstrando uma tradição pura naquele circuito. Estava testando-a, noite após noite, contra lutadores de catch e homens-fortes, e incorporando tudo o que funcionava ao que já sabia. A estrada reescreveu a arte que ele carregava.

Fotografia em grupo de quatro judocas, incluindo Maeda, 1912
Maeda com os colegas judocas Ono, Satake e Itō, 1912. Ele não viajava nem ensinava sozinho. Wikimedia Commons, domínio público.

Belém

Chegou ao Brasil por volta de 1914 e se fixou em Belém, uma cidade ribeirinha perto da foz do Amazonas, longe do sul do país. Ali continuou lutando e começou a ensinar, dando demonstrações que atraíram a atenção local no fim de 1915. Belém é onde a história finalmente toca o nome Gracie, através de Gastão Gracie, um empresário local que circulava no mundo dos promotores de Maeda. O que é certo é que Maeda criou raízes em Belém, tomou alunos e fez da cidade um lugar onde o jiu-jitsu japonês era ensinado e lutado em público. O que exatamente passou entre Maeda e a família Gracie, quanto, para quem e por quanto tempo, é a questão mais disputada de toda a história, e pertence ao próximo capítulo.

O homem, não o mito

O ponto que vale a pena guardar é que Maeda foi um lutador real e formidável, não uma lenda, e que a arte que ele trouxe não era uma tradição lacrada. Era o método funcional de um profissional que havia passado dez anos descobrindo, em público, o que de fato se sustentava. Ele deu ao Brasil algo poderoso e inacabado. O que o Brasil fez com isso, e quem merece o crédito, é onde o registro fica difícil, e onde a história honesta realmente começa.

Isto é um diário de iniciante, não instrução. Nada aqui é orientação de treino, saúde ou medicina. Aprenda com um professor qualificado e bata cedo. Aviso legal