柔の道

Jiu-jitsu vs Luta Livre e o Desafio de 1991

O nome Gracie foi feito tanto no ringue quanto na sala de aula. A partir da década de 1930, a família lançava desafios abertos nos jornais do Rio, convidando lutadores de qualquer estilo a se medir com um Gracie numa luta quase sem regras. Essas lutas tinham um nome: vale tudo. Por meio século, foi ali que o jiu-jitsu foi provar que não era um blefe, e a prova nem sempre era limpa ou gentil.

Vale tudo, o campo de provas

Rickson Gracie lutando contra Rei Zulu numa luta de vale tudo, 1980
Rickson Gracie contra Rei Zulu numa luta de vale tudo, 1980. Por meio século, o ringue quase sem regras foi onde o jiu-jitsu foi provar que não era um blefe. Autor desconhecido, via Wikimedia Commons, domínio público.

O vale tudo era a versão crua que o Brasil dava de uma luta de verdade: golpes e agarramento juntos, poucas regras, muitas vezes sem limite de tempo. É o ancestral direto das artes marciais mistas modernas e, por décadas, foi o caldeirão em que os Gracie lutaram para construir sua reputação. A arte que vencia ali não era a mais bonita. Era a que conseguia levar um estranho ao chão e finalizá-lo, e o jiu-jitsu, com seu paciente jogo de solo, seguiu fazendo exatamente isso. Rickson Gracie construiu parte de sua lenda nesses combates, vencendo duas vezes o brigão Rei Zulu diante de grandes plateias.

O que é a Luta Livre?

O jiu-jitsu nunca foi a única arte de agarramento no Brasil. A Luta Livre cresceu ao lado dele: um estilo lutado sem o kimono, com raízes no catch wrestling, o estilo ocidental de imobilizar e finalizar que se espalhou por circos e ringues de prêmio. As duas se tornaram rivais ferrenhas. A inimizade remontava ao início dos anos 1940, quando Euclydes "Tatu" Hatem, uma figura fundadora da Luta Livre, venceu George Gracie numa luta que a Luta Livre nunca deixaria a família esquecer. A rivalidade tinha um tom que não era só sobre técnica. A Luta Livre não precisava de kimono nem de academia cara, e vinha de fora do mundo em que o nome Gracie transitava, de modo que a rixa passou a ser em parte uma questão de a quem o jiu-jitsu pertencia. No fim dos anos 1980, ela havia transbordado dos tatames para a areia, mais notoriamente em 1988, quando Rickson Gracie e o lutador de Luta Livre Hugo Duarte se enfrentaram na Praia do Pepê diante de uma multidão.

O Desafio de 1991: jiu-jitsu vs Luta Livre

Tudo chegou ao ápice em 26 de setembro de 1991, no Grajaú Country Club, no Rio, num evento anunciado como o Desafio, jiu-jitsu contra Luta Livre, transmitido ao vivo pela Rede Globo. Três lutas, uma arte contra a outra: Wallid Ismail, Murilo Bustamante e Fábio Gurgel pelo jiu-jitsu, escalados por Carlson Gracie, contra Eugênio Tadeu, Marcelo Mendes e Denílson Maia pela Luta Livre. O jiu-jitsu venceu as três, todas por interrupção, e não por decisão. As vitórias não foram finalizações elegantes, mas o trabalho mais bruto de assumir a posição por cima e finalizar com golpes no chão.

Jiu-jitsu Luta Livre Como terminou
Wallid Ismail Eugênio Tadeu Nocaute técnico, por volta dos dezesseis minutos
Murilo Bustamante Marcelo Mendes Nocaute técnico, em menos de cinco minutos
Fábio Gurgel Denílson Maia Montada e golpes no chão

Foi tão decisivo quanto uma guerra de estilos pode ser. A Luta Livre nunca recuperou o prestígio que tinha, e o jiu-jitsu firmou-se, ao menos no Brasil, como a arte de agarramento que respondera a todo desafio que lhe fora lançado.

Por que o jiu-jitsu venceu a rivalidade com a Luta Livre

Os anos de luta são onde o jiu-jitsu conquistou a reputação que o resto do mundo mais tarde tomaria como certa. As duas artes levavam a luta ao chão, então a verdadeira diferença estava no que faziam uma vez ali. O jiu-jitsu havia construído todo um sistema em torno da posição: como lutar de costas na guarda, como escapar de um lugar pior, como subir da guarda para a montada e para as costas, e como deixar a finalização para o fim. A Luta Livre, saída do catch wrestling, era perigosa por cima e rápida nas pernas, mas havia dedicado menos tempo ao problema mais difícil de lutar por baixo. Sem rounds e sem juízes, essa lacuna decidia as lutas: o homem do jiu-jitsu conseguia ficar seguro sob um adversário mais forte, esperar o perigo passar e abrir caminho até uma posição em que a finalização estava em suas mãos. Em 1991, o jiu-jitsu já havia enfrentado os estilos que o Brasil podia pôr à sua frente, nos jornais, no ringue de vale tudo e contra o seu maior rival, e vencera quase sempre. Faltava só uma coisa: prová-lo em algum lugar onde o resto do mundo estivesse assistindo. Esse palco já estava sendo construído, na Califórnia, e se chamaria Ultimate Fighting Championship.

Perguntas que o registro levanta

Quem venceu, o jiu-jitsu ou a Luta Livre?

O jiu-jitsu. No decisivo Desafio de 1991, a equipe de jiu-jitsu varreu as três lutas em disputa, e nenhuma chegou ao gongo final. O resultado encerrou uma rivalidade que durava décadas e deixou o jiu-jitsu brasileiro como a arte de agarramento dominante no país. A Luta Livre seguiu produzindo lutadores habilidosos, mas nunca recuperou o prestígio que perdeu naquela noite.

O que é a Luta Livre?

A Luta Livre é uma arte brasileira de agarramento e finalização, lutada sem kimono, com raízes no catch wrestling. Cresceu ao lado do jiu-jitsu brasileiro e se tornou seu principal rival. Por não precisar de kimono nem de academia cara, a Luta Livre recrutava sobretudo na classe trabalhadora, uma diferença que as histórias tratam como o que deu à rivalidade um tom de classe duradouro.

O que é o vale tudo?

O vale tudo era o confronto cru do Brasil, de golpes e agarramento, com quase nenhuma regra e muitas vezes sem limite de tempo. Era onde os lutadores testavam qual estilo de fato funcionava, e é o ancestral direto das artes marciais mistas modernas. A família Gracie construiu boa parte de sua reputação inicial em lutas de vale tudo.

Por que o jiu-jitsu venceu a Luta Livre?

As duas artes lutavam no chão, então a vantagem estava nos detalhes. O sistema de posição do jiu-jitsu — lutar a partir da guarda e avançar passo a passo antes de finalizar — permitia que seus lutadores ficassem seguros sob pressão e vencessem por baixo, onde o jogo de catch wrestling da Luta Livre era menos desenvolvido. No Desafio de 1991, a equipe de jiu-jitsu impôs esse jogo em todas as lutas. A vitória teve menos a ver com um estilo ser melhor no abstrato do que com aquilo que se sustentava quando as regras desapareciam.

A Luta Livre ainda é praticada hoje?

Sim, embora seja bem menor que o jiu-jitsu brasileiro. Seus lutadores moldaram o vale tudo dos primórdios e os primeiros anos do UFC, e a arte ainda tem praticantes e academias, sobretudo no Brasil e na Europa. Boa parte de seu agarramento sem kimono também escoou para as artes marciais mistas modernas, onde a velha divisão entre com kimono e sem kimono importa muito menos.

Quando foi o Desafio?

O principal Desafio Jiu-Jitsu vs Luta Livre foi realizado em 26 de setembro de 1991, no Grajaú Country Club, no Rio de Janeiro, e transmitido ao vivo pela Rede Globo. Ele veio depois de anos de lutas de desafio e confrontos na praia entre os dois lados, e seu resultado unilateral é o momento mais citado como o fim da rivalidade.

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