柔の道

A academia Gracie e a construção de um nome

O nome mais famoso do jiu-jitsu não foi herdado como destino. A família Gracie o fez, de propósito e ao longo de décadas, no Rio, longe de onde a arte primeiro aportou, em Belém. Essa construção é a história real, e ela é melhor que o mito.

A academia de Carlos Gracie no Rio, 1925

Carlos Gracie mudou-se para o sul, para o Rio de Janeiro, no início da década de 1920 e, por volta de 1925, abriu uma academia na Rua Marquês de Abrantes, no bairro do Flamengo. Fosse o que fosse que Carlos tivesse de fato aprendido no norte, o que ele fez em seguida foi o passo decisivo: transformou aquilo numa instituição. Não um segredo passado entre parentes, mas uma escola e um negócio de família, feito para ensinar a arte e para crescer. A academia é onde o jiu-jitsu no Brasil deixou de ser a habilidade importada de um homem e virou algo com uma porta, uma placa e um nome por cima.

Hélio Gracie e a arte para a pessoa menor

O irmão mais novo de Carlos, Hélio, nascido em 1913, era franzino e muitas vezes adoentado, e a história que a família conta é que ele reconstruiu as técnicas em torno do ângulo e do tempo, de modo que uma pessoa menor e mais fraca conseguisse fazê-las funcionar. A versão popular lhe dá o crédito de ter inventado essa ideia. A versão mais verdadeira é mais gentil com os fatos e não menos meritória para ele: usar a estrutura em vez da força era o princípio da arte desde o começo, o ceder que a palavra jūjutsu sempre havia nomeado. O que Hélio fez foi insistir nisso e torná-lo o centro do modo como a família ensinava, para que a arte brasileira carregasse uma promessa clara a toda pessoa pequena que entrasse.

Retrato de Hélio Gracie em 1932
Hélio Gracie em 1932, o irmão mais novo e franzino cuja insistência na estrutura em vez da força moldou o modo como a família ensinava. Arquivo Nacional, Brasil (coleção Correio da Manhã), domínio público.

O desafio, e o nome

O próprio nome foi feito em público. A partir da década de 1930, a família lançava desafios abertos nos jornais do Rio, convidando lutadores de qualquer estilo a se medir com um Gracie numa luta sem regras. Carlos enfrentou o lutador japonês Geo Omori já em 1930, e por anos depois disso a família manteve um quase monopólio sobre o espetáculo do vale-tudo no Brasil. O gênio da coisa era tão promocional quanto físico. Eles provavam a arte onde todos podiam assistir, vez após vez, e construíram uma reputação que nenhum rival conseguia contestar na conversa. O nome foi conquistado, mas também foi divulgado, de propósito, por gente que entendia que uma arte demonstrada se espalha e uma escondida morre.

A luta de 1951 entre Kimura e Hélio Gracie

A noite mais reveladora não foi uma vitória. Numa noite de 1951, num estádio do Rio lotado com cerca de vinte mil pessoas, Hélio enfrentou Masahiko Kimura, um dos maiores judocas que já viveram. Kimura venceu. Ele pegou Hélio numa chave de braço invertida e, quando Hélio não se rendeu, quebrou ou deslocou o braço em vez de soltar, e ainda assim Hélio não desistiu até que o irmão jogasse a toalha. Então a família fez algo que diz muito sobre quem eles eram: deram à técnica o nome do homem que havia derrotado o seu campeão. No jiu-jitsu ela ainda se chama Kimura. O nome cresceu tanto daquela derrota quanto de qualquer vitória, da coragem de não se render e da elegância de honrar o lutador que venceu.

Masahiko Kimura imobilizando Hélio Gracie durante a luta deles em 1951
Masahiko Kimura controlando Hélio Gracie com um kesa-gatame, Rio, 1951. Kimura venceu, e a família deu à chave de braço que derrotou Hélio o nome de Kimura. Via Wikimedia Commons.

O que os Gracie construíram no Rio não ficaria no Rio. Uma geração depois, atravessou para os Estados Unidos e reescreveu como o mundo pensava uma luta, e esse é o próximo capítulo.

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