柔の道

Os anos de luta: o vale-tudo e a guerra com a Luta Livre

O nome Gracie foi feito no ringue tanto quanto na sala de aula. A partir da década de 1930, a família lançava desafios abertos nos jornais do Rio, convidando um lutador de qualquer estilo a se medir com um Gracie com quase nenhuma regra. Essas lutas tinham um nome: vale-tudo. Por meio século, foi onde o jiu-jitsu foi provar que não era um blefe, e a prova nem sempre foi limpa ou branda.

O vale-tudo, o campo de provas

O vale-tudo era a versão crua do Brasil para uma luta de verdade: golpes e agarramento juntos, poucas regras, muitas vezes sem limite de tempo. É o ancestral direto das artes marciais mistas modernas, e por décadas foi o caldeirão em que os Gracie lutaram para construir a sua reputação. A arte que vencia ali não era a mais bonita. Era a que conseguia levar um desconhecido ao chão e finalizá-lo, e o jiu-jitsu, com o seu jogo de chão paciente, seguia fazendo exatamente isso.

O outro grappling: a Luta Livre

O jiu-jitsu nunca foi a única arte de agarramento no Brasil. A Luta Livre cresceu ao seu lado, um estilo disputado sem kimono, com raízes no catch wrestling, e as duas se tornaram rivais ferrenhas. A rixa remontava ao início da década de 1940, quando Euclydes "Tatu" Hatem, uma figura fundadora da Luta Livre, venceu George Gracie numa luta que a Luta Livre não deixaria a família esquecer. A rivalidade tinha uma aspereza que não era apenas técnica. A Luta Livre não precisava de kimono nem de academia cara, e vinha de fora do mundo em que o nome Gracie circulava, de modo que a contenda virou em parte uma questão de a quem o jiu-jitsu pertencia. No fim da década de 1980, já havia transbordado dos tatames para brigas abertas entre os dois lados.

1991: o Desafio

Chegou ao ápice em 26 de setembro de 1991, no Grajaú Country Club, no Rio, num evento anunciado como o Desafio, jiu-jitsu contra Luta Livre, transmitido ao vivo pela Rede Globo. Três lutas, uma arte contra a outra: Wallid Ismail, Murilo Bustamante e Fábio Gurgel pelo jiu-jitsu, treinados por Carlson Gracie, contra Eugênio Tadeu, Marcelo Mendes e Denílson Maia pela Luta Livre. O jiu-jitsu venceu as três, e nenhuma foi até o fim. Foi tão decisivo quanto uma guerra de estilos pode ser. A Luta Livre nunca recuperou o prestígio que tinha, e o jiu-jitsu se firmou, ao menos no Brasil, como a arte de agarramento que respondera a todo desafio que lhe fora feito.

Por que importa

Os anos de luta são onde o jiu-jitsu conquistou a reputação que o resto do mundo mais tarde tomaria como certa. Em 1991, já havia enfrentado os estilos que o Brasil podia pôr à sua frente, nos jornais, no ringue do vale-tudo e contra o seu rival mais próximo, e vencera na maior parte das vezes. A única coisa que faltava era prová-lo em algum lugar onde o resto do mundo estivesse assistindo. Esse palco já estava sendo construído, na Califórnia, e se chamaria Ultimate Fighting Championship.

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