柔の道

Antes do judô: as muitas escolas do jūjutsu

A imagem popular de onde o jūjutsu começou é um samurai num campo de batalha, derrubando ao chão um inimigo de armadura. Essa imagem não está tanto errada quanto atrasada e estreita. Quando a arte ganhou um nome e uma forma estabelecida, o Japão já vivia em paz havia gerações, e o que cresceu não foi uma única habilidade de campo de batalha, mas centenas de escolas separadas, tão preocupadas em policiar uma cidade e proteger um comerciante quanto com qualquer coisa que uma guerra exigisse.

Gravura ukiyo-e de dois homens agarrados à beira da água
Dois homens agarrados numa gravura de Tsukioka Yoshitoshi, 1866, o tipo de disputa corpo a corpo em torno da qual as escolas antigas se construíram. Los Angeles County Museum of Art, domínio público.

Não uma arte, mas mil escolas

Nunca existiu uma coisa única chamada jūjutsu. 柔術 (jūjutsu) é um nome de família para um emaranhado de linhagens separadas, cada uma um 流派 (ryūha) com seu próprio fundador, suas técnicas e seus segredos guardados. Uma das mais antigas que se pode documentar, a Takenouchi-ryū, remonta a 1532 e já ensinava agarramento, chaves articulares e o uso de armas pequenas. De raízes como essa as escolas se multiplicaram. No fim do período Tokugawa, em 1868, por algumas contagens chegava a duas mil delas espalhadas pelo Japão, ensinando métodos que se sobrepunham e competiam, cada escola guardando ciosamente as próprias diferenças.

Demonstração de uma técnica da Takenouchi-ryū
Uma técnica da Takenouchi-ryū demonstrada em 1953. Fundada em 1532, a escola está entre as mais antigas documentadas e ensina até hoje. Asahi Shimbun via Wikimedia Commons, domínio público.

Uma arte de tempos de paz, não de campo de batalha

A multiplicação aconteceu durante o período Edo, os dois séculos e meio de paz sob os xoguns Tokugawa, de 1603 a 1868. Agarrar de armadura pertencera à era anterior, a das guerras civis. Um país que tinha parado de travar guerras precisava de outra coisa: maneiras de uma população quase toda desarmada lidar com uma ameaça quase toda desarmada. Boa parte do jūjutsu era, em termos simples, trabalho de polícia. As escolas se especializavam em 捕手 (torite), a arte de agarrar e controlar uma pessoa, e em 捕縛 (hobaku), a arte de amarrá-la, para que um guarda pudesse levar um suspeito vivo em vez de matá-lo. O ofício que o Ocidente mais tarde imaginaria como o segredo mortal dos guerreiros foi, durante a maior parte de sua vida, o trabalho prático de prender um bêbado sem sacar uma lâmina.

O nome que significa ceder

A palavra carrega a ideia. O 柔 (jū) em jūjutsu, lido isoladamente como yawara, não significa força. Significa suavidade, flexibilidade, ceder. O princípio é tomar emprestada a força do adversário e redirecioná-la em vez de enfrentá-la de frente, e as escolas do período Edo recorreram a nomes como jūjutsu e yawara em parte para sinalizar que seus métodos não eram meramente brutais. É o mesmo caractere, e a mesma ideia, de onde este site tira o seu nome. Muito antes de alguém costurá-lo numa faixa, ele era uma afirmação: a de que uma pessoa menor e mais calma podia dar conta de uma maior e mais raivosa.

As escolas que moldaram o judô: Kitō-ryū e Tenjin Shin'yō-ryū

Do meio da multidão, algumas linhagens moldariam tudo o que veio depois. A Kitō-ryū ensinava a projeção e a quebra de equilíbrio, um estilo mais suave e mais voltado a princípios. A Tenjin Shin'yō-ryū, fundada na década de 1830, misturava golpes de percussão com luta agarrada de curta distância. Nenhuma das duas era muito famosa além dos próprios alunos. Mas na década de 1870 um jovem estudioso e de compleição franzina chamado Jigorō Kanō se matricularia numa e depois na outra, em busca de algo que o velho e apinhado mundo das ryūha não havia bem nomeado. O que ele fez com isso é o próximo capítulo.

O campo de batalha era real, mas era apenas o começo do começo. A arte que por fim cruzou o oceano até o Brasil não desceu de um único guerreiro. Ela saiu de uma tradição apinhada e pacífica, de muitas mãos, a maioria delas pertencentes a pessoas cujos nomes se perderam.

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